O Brasil aparece com frequência entre as maiores economias do mundo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto brasileiro alcançou cerca de R$ 10,9 trilhões em 2023, mantendo o país no grupo das dez maiores economias globais em valores nominais. Ainda assim, essa grandeza raramente se traduz em estabilidade, renda adequada ou perspectiva de ascensão social para a maioria da população
Essa contradição não é recente, mas se torna mais evidente em um cenário de mudanças profundas no mundo do trabalho, marcado pela informalidade persistente e pelo avanço do modelo conhecido como uberização das relações laborais.
Trabalho em expansão, proteção em retração
Os dados do IBGE mostram que, apesar da queda gradual do desemprego nos últimos anos, o mercado de trabalho brasileiro segue fortemente apoiado em vínculos frágeis. A informalidade atinge aproximadamente 40% da população ocupada, um patamar elevado para uma economia do porte do Brasil.
Dentro desse contexto, cresce o número de trabalhadores vinculados a plataformas digitais. Em 2022, cerca de 1,5 milhão de brasileiros declararam trabalhar por meio de aplicativos de transporte, entrega ou prestação de serviços. Embora representem uma parcela minoritária do total de ocupados, esses trabalhadores simbolizam uma tendência mais ampla de substituição de empregos formais por ocupações sem garantias trabalhistas e previdenciárias.
O discurso que acompanha esse modelo costuma exaltar autonomia, flexibilidade e empreendedorismo individual. Na prática, porém, essa autonomia é limitada. As plataformas definem preços, controlam algoritmos de distribuição de demandas e podem desligar trabalhadores unilateralmente. Os custos da atividade, como combustível, manutenção, equipamentos e tempo de trabalho, recaem integralmente sobre o prestador de serviço, sem contrapartida em proteção social.
O empreendedorismo por necessidade
O Brasil também apresenta um número expressivo de trabalhadores por conta própria. Parte deles corresponde a empreendedores consolidados, mas uma parcela significativa atua por necessidade, e não por oportunidade. Para muitos brasileiros, trabalhar por conta própria não é uma escolha estratégica, mas a alternativa possível diante da escassez de empregos formais.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que o crescimento econômico, quando ocorre, produz efeitos limitados sobre a renda média e a produtividade. A economia cresce, mas cresce apoiada em setores de baixa qualificação, com pouca incorporação tecnológica e reduzida capacidade de gerar empregos estáveis.
A ausência de educação econômica
Esse cenário se conecta a um problema estrutural pouco debatido no Brasil: a ausência de ensino sistemático de noções básicas de economia e finanças desde a educação básica. A maior parte dos estudantes conclui o ensino médio sem compreender conceitos elementares como inflação, juros, produtividade, tributação, orçamento público ou funcionamento do mercado de trabalho.
Organismos internacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), defendem há anos a inclusão de educação econômica e financeira nos currículos escolares. Países como Finlândia, Dinamarca, Suécia, Noruega e Canadá adotaram modelos educacionais que integram essas competências desde cedo, associadas ao desenvolvimento do pensamento crítico e à resolução de problemas do cotidiano.
Esses países apresentam níveis elevados de renda per capita, maior produtividade e menor desigualdade social. Também cultivam uma cultura cívica em que a população participa do debate econômico com maior grau de informação e consciência dos impactos das políticas públicas.
Um ciclo que se perpetua
No Brasil, a falta de educação econômica contribui para a perpetuação de um ciclo problemático. Trabalhadores aceitam relações precárias como inevitáveis. Pequenos empreendedores enfrentam dificuldades para planejar, investir e expandir seus negócios. O debate público sobre economia permanece superficial, frequentemente dominado por slogans ou soluções simplistas.
Sem compreender como funcionam as engrenagens da economia, torna-se mais difícil avaliar propostas, cobrar políticas públicas consistentes ou mesmo entender os limites e possibilidades do crescimento econômico.
Transformar tamanho em solidez
O Brasil dispõe de recursos naturais abundantes, um vasto mercado interno e uma população numerosa. O desafio não está no tamanho da economia, mas na sua capacidade de transformar crescimento em trabalho qualificado, renda estável e proteção social.
A discussão sobre a uberização do trabalho e sobre a ausência de educação econômica nas escolas não é ideológica. Trata-se de reconhecer que um país que aspira a ser grande não pode sustentar sua base social sobre vínculos frágeis e desinformação econômica.
Transformar a grandeza econômica do Brasil em solidez institucional e social exige investimento contínuo em conhecimento, qualificação da força de trabalho e formação cidadã. Sem isso, o país continuará figurando entre as maiores economias do mundo, enquanto milhões de brasileiros seguem sentindo que trabalham muito, ganham pouco e permanecem no mesmo lugar.
Fontes:
• Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Contas Nacionais Trimestrais e Anuais
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua)
Agência de Notícias IBGE
https://www.ibge.gov.br
• IBGE – Trabalho por aplicativos
“Em 2022, 1,5 milhão de pessoas trabalharam por meio de aplicativos de serviços no país”
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br
• Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
Education at a Glance
Relatórios sobre educação financeira e competências econômicas
https://www.oecd.org
• OCDE – Educação financeira e currículo escolar
Financial Education in Schools
https://www.oecd.org/finance/education
• Literatura e análises complementares
Estudos comparativos sobre educação econômica em países nórdicos e Canadá
Relatórios educacionais e de produtividade internacional citados pela OCDE
